
*nota pessoal de 22 de março de 2026
Quando algo inesperado acontece comigo e eu preciso tomar decisões difíceis, eu sempre me pergunto: “eu estava quieta no meu canto, por que esse problema apareceu do absoluto nada?” É muito mais fácil conceber desafios que são consequência de uma escolha errada do que aceitar uma situação que sobreveio à sua vida inesperadamente. De um lado, é muito mais frustrante, do outro, é reconfortante contar com a sua própria inocência no meio de uma circunstância imprevisível.
Para aqueles que não me conhecem, eu sou uma das pessoas mais difíceis de chatear que existe! Para quem me conhece, eu sou puro drama… E em um desses meus momentos dramáticos de pensar demais, explicar demais e me perguntar o porquê das coisas acontecerem de forma tão injusta às vezes, eu abri meu celular e vi o wallpaper que eu mesma coloquei nele, sem saber que me humilharia um dia (talvez meu vício em telas não seja de todo inútil, no fim das contas.)
Eu tenho fascínio pela tela de Rembrandt, Tempestade no Mar da Galileia. Eu gosto da narrativa visual que o pintor barroco cria atribuindo uma reação a cada discípulo e se colocando no meio da cena olhando direto para quem observa a pintura. Ele aparece confuso e inspirando expectativa quanto ao desfecho da história, apesar de como cristão já saber bem como ela termina. A tela é inspirada na passagem bíblica que encontramos em Marcos 4:35-38:
“Naquele dia, ao anoitecer, ele disse aos seus discípulos: ― Vamos para o outro lado do lago. Deixando a multidão, eles o levaram no barco assim como estava. Outros barcos também o acompanhavam. Levantou‑se um forte vendaval, e as ondas se lançavam sobre o barco, de forma que começou a se encher de água. Jesus estava na popa, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e clamaram: ― Mestre, não te importas se morrermos?”
Jesus mandou que eles atravessassem o lago, de noite, e havia outros barcos que os seguiam. Ou seja, Jesus não colocou somente os doze em apuros, mas uma frota inteira. E enquanto as pessoas lutavam pela própria vida, Ele dormia, provavelmente porque a tempestade não O incomodava at all. Não faço ideia como o Senhor conseguiu dormir tranquilo todo encharcado, mas uma coisa fica implícita na narrativa bíblica: a chuva e as ondas não eram surpresa para Jesus. E a pergunta dos discípulos ressoa tanto comigo: “Mestre, não te importas se morrermos?”
É um pouco triste que conhecendo a Jesus, a gente ainda faça esse tipo de pergunta para Ele. Mas colocando de lado a falta de confiança que precisamos lutar contra, só por curiosidade… Por que?! Crescendo dentro da igreja, eu sempre ouvi que não poderíamos perguntar “por que?” para Deus, que deveríamos perguntar “para quê?” Confesso que não vejo tamanha diferença entre elas, já que a resposta seria a mesma. Por exemplo, eu fui ao mercado para comprar sorvete. Se alguém me perguntasse porque eu fui ao mercado, eu responderia para comprar sorvete. Se me perguntasse para quê eu fui ao mercado, eu diria que para comprar sorvete! Entende como é cômico e limita nosso relacionamento de fazer qualquer pergunta para o Senhor, sem nenhuma justificativa significante?
A verdade é que o Senhor enxerga seu coração quebrado, ainda que você use as palavras certas.
Será que Ele não se importa mesmo que morramos? Será que Ele não nos vê como somos? Não conseguimos parar a tempestade! Não conseguimos ser perfeitos, nem escolher amigos confiáveis. Não conseguimos lutar contra os nossos vícios, e a vida parece uma roda de hamster que decidimos não parar mesmo cansados por medo de nos estabacarmos. Por que todos os nossos momentos de obediência nos trouxeram até aqui, e não para a calmaria? Jesus quem nos mandou atravessar!
A resposta está na popa do barco… Dormindo. Ele mandou atravessar sim, e sabia sim da dificuldade que viria pela frente, mas Ele está paciente e tranquilo esperando ser solicitado. Afinal, a tempestade não é grande coisa para o Mestre, ela não significa morte. Na perspectiva de Jesus, no fim das contas, a chuva e as ondas eram vida para todos aqueles barcos que os acompanhavam. Cada navio daquela frota viu um mar revolto se acalmar com apenas a palavra de Jesus, e teve a chance de crer. Esse sempre será o motivo das nossas dificuldades, cristãos maduros aguentam o balançar da popa e água na cara sem fugir, porque essa é a nossa chance de testemunhar e esse é o voto de confiança que Ele nos dá. Jesus ainda vai continuar nos pedindo para atravessar, para que outros vejam que você permaneceu e que Ele fez tudo valer a pena.
“Ele se levantou, repreendeu o vento e disse ao lago: ― Aquiete‑se! Acalme‑se! O vento se aquietou, e tudo ficou calmo. Então, perguntou aos seus discípulos: ― Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé? Eles estavam grandemente apavorados e perguntavam uns aos outros: ― Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” Marcos 4:39-41
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